segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Com o Avô Luís



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Foto google

Hoje o avô estava sentado naquele canto do jardim onde costumava passar as tardes. Quando não chovia e o frio não era muito forte, era ali que o encontrávamos. Hoje reparei que ele se sentava naquela pedra grande, junto ao portão de madeira e que se encostava à parede. Assim protegia-se dos ventos frios do norte e, ao mesmo tempo, aquecia-se com o Sol que lhe chegava silencioso no final das tardes de Outubro.

Muitos dias mantinha a sua expressão séria e calma, ocupando as suas mãos em pequenos trabalhos que ele gostava de fazer.
Parecia mergulhado em sonhos de criança construindo sem pressa pequenas coisas que o distraíam. Dava gosto vê-lo brincar com pequenos pedaços de madeira, de ferro e também de plástico.

Quando agarrava um pau, grande ou pequeno, parece que lhe nascia o sonho de o tornar numa outra coisa mais bonita e prestável. Foi assim que ele com um canivete e algumas horas de paciência construiu o meu primeiro cavalinho.
Depois ajudou-me a montar e eu tornei-me num cavaleiro a sério. Parece-me que brincámos os dois pela tarde toda.

Meti o pau no meio das minhas pernas e segurava-o com um cordel que o Avô me disse serem as rédeas. As rédeas servem de comando do cavaleiro sobre o animal.
Dar "rédea curta" ou "rédea solta"
- Xó, xó!...Arre burro!
Aí, xó burro...Foram expressões novas que aprendi naquela tarde. 
Quando passava perto ele imitava as patas e o trote do cavalo.
E riamos ambos quando o avô fazia o relinchar da besta.
Foi uma tarde que nunca mais esquecerei.
O tempo foi nosso. Não demos conta da noite chegar.

Agora os dias passavam lentamente, mas ao mesmo tempo, sucediam-se rapidamente. Corriam os dias, as semanas, os meses e até os anos. 
-Ainda ontem os meus filhos casaram e já estes garotos correm aqui cheios de vida e de encanto. Dizia falando consigo, mas ao mesmo tempo querendo que o ouvíssemos.
Outro dia encontrei o avô a construir um cata-vento.
Depois falaremos dele. O Avô partiu em 2004, mas o cata-vento, ainda roda, empurrado pelo vento.
Contarei esta história depois.
Hoje vou dormir, como naquele dia, abraçado ao meu cavalinho.
Luiscoelho
Setembro/2015

O Cata-vento



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(Foto google)

Hoje viemos encontrar o avô às voltas com um pedaço de chapa de zinco. Pensámos que queria arrumá-lo, mas não. Ele tinha outros pensamentos. Daquele pedaço de zinco haveria de nascer uma coisa diferente. Um cata-vento.
Havia entre as suas ferramentas toscas um eixo da nora do poço que agora lhe servia de bigorna.
Quando veio a luz eléctrica, 1955, o avô vendeu uma pipa de vinho mais alguns pinheiros velhos e comprou um motor eléctrico para o poço tendo nesta data desmantelado a nora.

Com um martelo foi batendo aquela chapa para a alisar. Os olhos dos garotos abriam-se ainda mais pois não sabiam os pensamentos do avô.
Depois, cheios de curiosidade, perguntaram: 
- Avô, que estás a fazer?
- Com este pedaço de chapa quero fazer um cata-vento, mas é melhor irem brincar lá para fora. Isto ainda vai levar muito tempo. 
Já o construí dentro da minha cabeça, mas não sei explicar de modo que vocês percebam. Depois vocês vão ver! Disse-lhes com muita calma e doçura no olhar.

Desta vez os miúdos não regatearam as palavras e, num ápice, desandaram para o lado da eira. Os gritos de alegria animaram todo aquele canto do avô. Agora ele sentia-se num mundo mais jovem. Uma vida diferente povoava-lhe aquele vazio dos dias silenciosos
Quando voltaram para dentro, já o avô tinha desenhado as suas ideias. Com um lápis riscou num cartão um cavaleiro montado num burro. Não era assim muito, muito parecido, mas depois de nos dizer o que era, ficámos a ver um burro e a metade superior de um corpo de homem. 

- Agora vem o mais difícil, continuou o avô. É fazer tudo isto naquela chapa de zinco. Vamos a ver se eu consigo "dar conta do recado".
Entretanto chegou a hora  do almoço. 
- Vão lá para dentro. Vão lavar as mãos e preparem-se para comerem tudo sem aborrecer a mamã. 
Encantado com os netos ficou a vê-los entrar em casa.

Nos dias seguintes os miúdos foram para a escola mas o avô não desistiu do seu sonho.
Com uma tesoura de podar, já velha, foi recortando a chapa.
O burro ficou quase perfeito. 
As patas e as orelhas identificavam-no.
O cavaleiro tinha as mãos espalmadas, segurando as rédeas da besta. Na cabeça tinha um chapéu que lhe escondia os restantes pormenores.

De um  lado deixou duas pontas salientes, uma em cima e outra em baixo onde prendeu um tubo de plástico. Dentro deste tubo entrava uma ponta de uma verga de ferro que o avô fixou na parede. Assim o cata-vento podia rodar mantendo-se sempre na posição vertical.

No sábado não havia escola. O avô sentou-se no seu canto. Estava à nossa espera. Ao lado tinha o cata-vento. 
Assim que nos viu chamou:
- Venham cá, venham todos!
Hoje vamos colocar o burrinho e o cavaleiro a trabalhar. Querem ver? 
Então foi buscar uma escada de madeira, que ele também tinha feito. Encostou-a à parede da casa da eira e subiu segurando numa das mãos o seu trabalho.
Os netos estavam admirados com a sua paciência e determinação. Subiu os degraus todos e colocou o cata-vento no lugar.  
- Já está! - Disse vitorioso.
Com a mão que estava livre ajeitou o boné na cabeça e esperou algum tempo no cimo da escada  para ver se estava tudo certo.

Depois começou a descer. Agora parecia que estava com mais dificuldade. Os nossos olhos fixaram-se mais no avô que descia com muito cuidado. 
- Trinta mil cautelas!... disse-nos mais tarde. 
E foi descendo lentamente de degrau em degrau e mudando os pés e as mãos alternadamente.
Quando chegou ao fundo começámos a bater palmas para festejar e para lhe agradecer. 
Havia um brilho especial naquele olhar. Uma vitória. Estava tudo a funcionar como tinha sonhado.

Finalmente foi sentar-se na pedra grande encostado à parede da casa  de onde podia ver o cata-vento a rodar. Nós sentámo-nos ali à volta seguindo o seu olhar e as voltas que o burrinho ia dando lá em cima.
Mais tarde irá arrumar a escada, não vá algum do meninos querer subir por ali acima... 

luíscoelho
Setembro/2015 

Amei sem tempo



50 fotografias surpreendentes VII - Flores deslumbrantes
(Foto google)


Amei sem esperar esta grande amizade.
Vi que era muito bela e também apaixonada,
E de tantas sensações não sei dizer-te mais nada.
Teria algo picante, muito amor e felicidade,
Mas sumiu tão de repente desse amor sacrificada.

Andei ás voltas comigo, dentro dos meus pensamentos,
Sonhei amar-te sem tempo, viver de muita ternura.
Só teríamos de esconder desse amor a formosura.
As coisas que nós sentimos, trazidas por estes ventos,
Têm cores que nos obrigam a ter melhor compostura.

E neste tempo sem tempo para sarar esta dor
Fiz-me ao mar de tanto amar só por amor,
E deixei a vida renascer com nova cor.

Luiscoelho
Outubro-2015

Caminhos


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(foto google)
Caminho lentamente,
E despreocupado penso
Não sou nada, não sou ninguém.
Olho em frente, mas não vejo nada.
Todo o presente é passado,
Os pensamentos enchem-me
E como marés se repetem.
Tudo vai e tudo vem.
Vazios de desejo crescem
Como rochas que se erguem
Desafiando os tempos
Sonhos que amamos e vivemos.

Ensaio os passos
De sonhos trocados
Onde se ligam tantos laços.
Olho em frente e caminho sempre
Dança inexperiente.
Viver não se faz parado
Nem do passado ausente.
Luiscoelho
Outubro/2015

Não quero partir sem te viver



Fotos de coração
(foto google)

Não, não sei porque te despes,

Nem sei porque desces as tuas mãos
Pelo meu corpo vazio do teu amor. 
Não sei porque sem roupas me vestes 
E neste amor me dás as mãos, 
Pois sem querer a ti me dou de coração
E sem pensar me deixo ir e em ti ficar.

Vem nestas madrugadas velar meu sono,
Vem aquecer-me neste deserto.
Quero acordar-te os lábios secos
E desenhar-te todo em mim.
Quero beber-te gota a gota e ter-te perto.
Não, não quero partir sem te viver 
E contigo repartir esse prazer
Que o teu corpo nos meus olhos desenharam.
luícoelho
Outubro/2015

Cartão Barclaycard Flex - Barclaycard.pt‎


( foto google)

No dia dois de Novembro, depois do almoço, estavamos ainda sentados à mesa, vendo o noticiário sobre as inundações no Algarve.
Inesperadamente tocou o telemóvel. 
- Estou sim. Boa tarde!
- Estou a falar com o sr, Luís Coelho ?
- Sim, sim. Em que posso ajudar?
- Bom, o meu nome é .../... do Banco Barlays e gostaria de lhe oferecer os nossos produtos. O nosso Banco está a oferecer um cartão de débito a que está associado um crédito a todos os novos clientes e que poderá utilizar em condições vantajosas.
- Pois muito bem, respondi, mas continuei:
Diga-me para que quero eu um cartão desses se não tenho dinheiro. Se eu tivesse dinheiro teria procurado os vossos serviços ou o de outros Bancos para obter lucros.
Não tendo dinheiro não poderei pagar o vosso crédito.
Parece-me que a Srª está a perder  seu tempo e a querer ludibriar-me.
- Sr Luís, muito obrigado pela sua atenção. Desejo-lhe uma boa tarde.
Fez-se silêncio de ambos os lados.
A minha mulher que estava ali perto e também esteve atenta  à nossas conversa, acrescentou:
- Boa resposta. 
E assim cai muita gente no logro do dinheiro fácil.
Já aprendi que os Bancos não dão nada a ninguém e aqueles que entram nestas redes acabam por pagar tudo a triplicar.
É um empréstimo para pagar outro empréstimo e depois mais um para resolver o problema dos primeiros...
luíscoelho
Novembro/2015 

Hoje, só hoje


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Foto google

Hoje, só hoje, senti a tua indiferença.
Quando me queres como um ornamento
Quando te agrada ou ainda te aquece.
Hoje percebi que o meu lugar já não é aqui
Nem adianta alimentar este pensamento
Porque tanto amor vivido já me arrefece.

Hoje, só hoje, percebi a tua vaidade
Quando me trocas ou te escondes de mim
Ou quando te apressas porque te convém.
Hoje  percebi que o meu lugar já não é aqui,
E não tenho razões para sofrer mais assim.
Esse amor, se não for a dois, nada tem.

Hoje, só hoje, acordei triste e magoado
E neste frio senti-me gelado. 
Não quero que sofras para estares ao meu lado,
Nem eu quero ficar a ti acorrentado.

Novembro/2015
Luíscoelho