segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Um dia de Abril


Fotografia

Um dia de Abril
Olhei da janela
E procurei por ti.
Quis ver-te
Ouvir-te
Falar-te
Talvez até beijar-te.
Cresceu a saudade
Na dor que me deu 
E sem poder saciá-la 
Soltei minhas mãos
Que perdidas e loucas
Por mim se cruzaram,
E me percorreram
Em gestos de nada.
Neste meu delírio
Nem sei se foram as minhas
Ou se foram as tuas
Que tudo fizeram 
Que me abraçaram.
Foi apenas um beijo
Que por nosso desejo
Os lábios selaram.
luiscoelho
Abril/2015

Avô



(em 2000, numa tarde de Sol, com a sobrinha Albertina )

Acordou  cedo. 
Parece que os ossos já não se faziam à cama e doía-lhe o corpo todo. Teimosamente voltou-se para o lado oposto e tentou adormecer no vazio do tempo que lhe enchia a cama.
Acordou as suas rotinas.
- Mas o que é que eu vou fazer hoje?
Perguntas que nasciam no seu interior e que lhe roubavam o sono.

Outros pensamentos, desejos e sonhos povoavam-lhe o escuro do quarto. Lentamente viu que falava só.
- Cavar já não tenho forças. 
- Ir para a taverna não me sinto bem. 
Não gosto de ver aqueles homens com a barriga encostada ao balcão. 
Enchem-me de tristeza! 
Quando os vejo parecem esperar que alguém lhes pague um copo. Outros ainda olham-se interrogativos procurando um motivo de conversa. 
Alguns dias pegam-se por razões sem razão:
- Eu é que sei, eu é que vi e não me desmintam...
Depois os outros atacam e zangam-se por coisas de nada.
Não! Isso não é vida para mim.

Os tempos mudaram. Já nada é como no meu tempo. 
A vida na aldeia era diferente. Havia movimento na pacatez dos dias passados no campo. 
Nos caminhos cruzavam-se pessoas e animais.
As manhãs eram coloridas com a alegria das crianças que iam para a Escola. Felizes e indiferentes às grandes privações. Iam e vinham transportando às costas uma sacola de burel com os livros, uma ardósia, os cadernos dos deveres e às vezes um pião.

Quando regressavam ao entardecer já tinham tarefas marcadas e era preciso cumpri-las. No fim tinham de fazer os trabalhos da escola e estudar a lição para o dia seguinte. Só depois poderiam fazer as suas corridas até os pais voltarem para casa já noite escura.

Alguns dias o frio e a chuva obrigava-os a ficar dentro de casa e a acenderem uma fogueira na lareira. 
Os mais velhos, os avós, estavam por ali e iam tomando conta da canalha. Havia respeito.
Os avós faziam parte de um todo - a família.

Tudo mudou. Não sei se vivemos melhor.
Muitos da minha idade já partiram. Outros foram para o Centro de Dia e outros ainda levaram-nos para os Lares de acolhimento. 
As vacas e os carros de bois deixaram de passar por aqui. 
Deixou de se ouvir a alegria das crianças que todas as manhãs passavam por aqui a caminho da Escola. 
Hoje os pais levam-nos de carro. Cada um entrega os seus filhos, indiferentes aos problemas dos outros.

Deu mais uma volta na cama, mas o sono já tinha partido.
Quando o Sol lhe invadiu o quarto sentou-se na beira da cama. Procurou os chinelos e a seguir orou sem querer saber porque o fazia. Rotina ou uma necessidade interior?
Quis agradecer o descanso e pedir coragem para o novo dia.

O Sol começava a dar sinais claros de um amanhecer quente e calmo. Estávamos no fim da Primavera.
Os dias agora eram grandes e mornos. A pardalada quebrava o silêncio dos campos. Voavam apressados e andavam numa ida e vinda constantes.
Ainda havia vida, muita vida por ali em volta de si, da sua casa e daqueles campos que se alargavam a perder de vista.

Agarrou-se à bengala e foi ao WC.
Depois de se aliviar abriu a torneira e esfregou os olhos e a cara. Já estou mais leve e também mais fresco.
- A velhice pesa. Safa!... Os pés colam-se ao chão e cada dia preciso de um esforço maior para os mover.

Bem, vou procurar uma fatia de pão e ponho-o a torrar. Depois é só juntar a água ao café e tenho o meu pequeno almoço feito.
E foi falando alto, sentindo uma necessidade de se ouvir ou de se sentir ainda acompanhado da mulher e dos filhos.
O seu tempo, outro tempo, quando lhe parecia não ter tempo para nada...
Agora tem muito tempo e nem sabe o que fazer deste tempo.

Alguns dias os netos passam por cá. Pode ser que hoje venham.
Nessas tardes volto a ter vida. É uma festa quando trazem os seus amigos.
Na outra semana pediram-me para lhes responder a muitas perguntas. Nem sei se eles entenderam tudo! Falar do meu tempo é quase falar de um outro planeta...
Eles vão tirando apontamentos e certamente os professores depois fazem uma explicação.

Os nossos mundos são diferentes.
Nós vivíamos para os campos. Fazíamos um casamento perfeito. Passávamos por lá os dias completos, de Sol a Sol.
Até as refeições se faziam por lá. 
A mulher fazia a sopa e depois ia levá-la aos campos onde estávamos. Muitos dias ficava por lá e regressávamos todos ao anoitecer.

As nossas casas eram quase um abrigo do frio da chuva e do calor. O mais importante eram os campos. Ser rico era ter muitos terrenos e uma casa cheia de cereais, feno para os animais e outras provisões. 
Hoje ser rico é ter um automóvel bonito e de marca. É ter uma casa grande, bonita e com belos jardins. Alguns até querem ter uma casa diferente de todas as outras...

Agora que já estou no fim da linha gostaria de continuar esta viagem e aprender tantas coisas novas que todos os dias vemos nos noticiários da TV.

Tenho a certeza que os meus netos me ensinariam a perceber este mundo novo onde parece que deixámos de ter lugar.
Luíscoelho
Abril/2015

25 de Abril


25 de Abril de 1974
Foto do google -identificada.

Foi uma revolução há muito tempo. Tempo demais. Precisamos de uma nova revolução.
Os micróbios apoderaram-se do bolo e teimam em comê-lo todo.
Nunca estão satisfeitos. A cada dia querem mais, muito mais. Criaram impostos sobre outros impostos e roubam o pão do povo.
Depois aparecem dentro das nossas casas bem falantes, bem parecidos e convencidos que são os eleitos, os escolhidos pelo voto popular. 

A TV dá-lhes carta branca e a imprensa fica em meias palavras e muito medo...
E gritam bem alto:
- Nós fomos eleitos! Não gostam emigrem...O que vier a seguir será ainda pior...
Esquecem-se das suas promessas.  Dão o dito pelo não dito. Atacam o pobre e o rico.

O quadro agora completa-se com alianças. Jogos de compadrio. 
Uns são poucos mas com outros poucos conseguem uma maioria. Finalmente aprovam toda a espécie de leis que os protegem. 
Dobram o poder judicial e subjugam o povo.
Dobram-se ainda aos interesses do capital e aos interesses estrangeiros.

Outros que se seguem e que tudo prometem nada mais farão que continuar esta contra-dança:
- Ora viras tu, ora viro eu...
No meio de tudo isto cresce a fome nas praças e ruas e os campos estão desertos de searas e pão.
Cresce a ganância de lugares políticos onde a impunidade e futilidade lhes dão protecção.
Sobra-nos um povo triste, pacato e empobrecido com estes desmandos à saúde, à educação e ao bem estar social.

A Igreja abotoou-se num silêncio comprometido. 
Chegou o tempo de falar e dizer que acabou o tempo da mentira, do roubo, da impunidade política que nos conduziu até aqui.
Só assim será Abril .
Só assim os cravos renascerão em cada boca e em cada olhar com sabor de Prosperidade, Fraternidade e Liberdade.
luiscoelho
Abril 2015,26

Fórnea - Porto de Mós





Era Domingo. A tarde estava amena. Depois do almoço arrumamos a casa. Por todos não custa muito.
Levaram-se os talheres para a cozinha e enquanto um os ia colocando na máquina, outros começaram na limpeza do chão e da mesa colocando uma toalha  lavada e uma jarra com flores.
Parecia que esperávamos por mais visitas durante a tarde.

Vamos fazer um passeio?
- Gostaria de ir à Fórnea. Disse-nos a Lia. Vocês não conhecem e aquilo é muito bonito.
Muitas das nossas actividades como escuteiros foram realizadas naquelas encostas. 
Não é fácil subir a montanha com a mochila carregada. É preciso força e determinação. Visto da base parece fácil, mas o terreno é muito acidentado. Grandes fragas que temos de contornar. 

Em alguns recantos, cercados de muros de pedra solta, existem bois aproveitando a magra pastagem que resiste entre as pedras nuas e secas.
Precisamos de seguir o nosso caminho sem os interromper nem provocar. Nunca se sabe a reacção de um touro.
Um dia estávamos quase no cimo. Um dos rapazes quis aliviar as costas do peso da mochila, mas deixou-a cair por ali abaixo. Depois teve de descer e voltar a subir com ela às costas. Uma pequena distracção atrasou toda a equipa. Ninguém pode avançar sem estarem todos juntos.

Os nossos olhos corriam apressados no serpentear das pedras que formavam um caminho no fundo do vale. Ao lado, num plano mais fundo, havia um ribeiro completamente seco. As marcas da passagem da água eram visíveis. Nos dias de Inverno quando a chuva cai dias e dias seguidos aumenta o caudal do ribeira que agora nos mostra o fundo completamente seco e algumas lages planas e polidas.

O perfume das ervas aromáticas enchia-nos os pulmões. Rosmaninho, alfazema, funcho, erva de Santa Maria ou erva pimenta, alecrim e muitas outras distribuídas graciosamente por entre as fragas.
Parece que a cada subida a alma se tornava mais leve.
Seria um acto de agradecimento a Deus por todas estas maravilhas. 
Aqui a mão do homem ainda não alterou a matriz inicial. A Natureza viva como no início da criação.

Inesperadamente encontramos uma pequena fonte. 
Até parece que Alguém pensou em saciar-nos de água fresca. Alguém que sabia de tanta aridez e achou por bem colocar ali aquela bica para que os passarinhos e todos os outros animais pudessem saciar-se e amenizar a caminhada pela encosta da Fórnea.  

- Alguns metros mais acima e mais à frente vamos parar, informou de novo a nossa guia, a Lia.
Depois a subida é ainda mais acentuada e não existe caminho nem outro trilho que nos leve lá acima. Regressaremos pelo mesmo caminho. 
Enquanto fomos subindo reparámos que o caminho ficava mais estreito. Agora os trilhos tinham características de um carreiro onde se caminha em fila indiana.
Adensavam-se os mistérios próprios da serra d'Aire. Lendas que povoam os recantos mais altos e escarpados.
Histórias que a imaginação popular criou e alimentou dando vida à vida destas Serras do interior de Portugal.

Começámos a descida e no regresso vemos novas cores da mesma paisagem. Reparamos nos troncos das oliveiras. Figuras bizarras, plantadas quase ao acaso, em zonas mais planas e onde a mão teimosa de alguns homens as vão alimentando de podas e  outros cuidados.
Em finais do ano recolhem algum azeite que depois usam nas suas casas. É o ouro daquelas terras.
Este azeite torna todos os pratos mais finos e saborosos. 
Só mesmo quem já provou o bacalhau assado  na brasa e regado com este óleo alimentar poderá dizer que em mais nenhum lugar do mundo tem este paladar, nem este sabor do saber português.

Vimos ainda as figueiras retorcidas pela sede e já sem frutos. Vimos as ameixoeiras  que se casavam com toda a paisagem num verde seco e silencioso.
Finalmente pensei com os meus botões, não querendo quebrar o encanto nem o silêncio de toda a paisagem:
- Isto deve ser muito diferente na Primavera! Todas estas árvores renascem de vida e de esperança.
Quem sabe se poderemos voltar aqui na Primavera para nos enchermos destas maravilhas?

Agora vamos visitar as grutas. Subimos de carro, serpenteando toda a encosta. Lá em cima, depois de parar, olhámos a paisagem circundante e ficámos sem palavras. Não é possível tanta beleza. Parece uma pintura interactiva onde se sentem, alem das cores, os sons e os cheiros.

No interior das grutas a natureza caprichou com outros temas de cores e de formas muito variadas.
Entrei com muita vontade de ver, mas depois, parece que crescia em mim o desejo de sair de lá de dentro. Confesso que não gosto muito de me sentir fechado e sem saber onde encontrar uma saída.
Não há nada melhor do que viver livre com a natureza. 
A foto foi tirada no início da viagem, subindo os trilhos da Fórnea.
Luíscoelho
Maio, 2015 dia 01 

Recado à Mãe



Foto de perfil de Mãe Virgínia Rodrigues

Guardo uma mão-cheia
De lindos sorrisos,
De palavras suaves 
E de beijos vividos.
Foram momentos queridos
De aromas silvestres.
Guardo ainda as cores
Com que me vestias 
Nas manhãs frias.
Foram muitas as roupas 
Que o teu olhar me fez respeitar.
E guardo as dores 
Que também me despias 
Nas tardes ventosas. 
Foram camisas rasgadas 
No amor que tu vias.
E aquele calor 
Com que me abraçavas 
E me aquecias.
Foi lá nos teus braços 
Onde aprendi o sabor do pão
E onde encontrei a palavra perdão, 
Tatuagens perfeitas  
Com amor e razão.
Maio.2015.08
luíscoelho

Não quero mas quero



Não quero acordar-te,
Mas quero ver-te dormir.
Olhar-te bem perto, 
Sentir o teu cheiro
Dizer-te o que sinto sem nunca mentir. 
Quero ver-te por dentro,
Desenhar-te nos sons do olhar,
Passagens por onde entro
Me sento e me deixo ficar.
Somos um lago de sonhos
Nas cores que queremos pintar,
E sem querer nos deixamos andar. 
Mas, se trocados os tempos, 
Os ventos não hão-de parar.
São esperanças tardias 
Que nos enchem a alma no aroma dos dias. 
São olhares furtivos 
Da arte como se roubam os beijos
Que do amor nos deixam cativos.
Quero mesmo acordar-te.
luíscoelho
Maio, 24-2015

Peregrinação


Resultado de imagem para Fotos de peregrinos fátima
(foto google)

Era muito cedo quando acordaram os filhos. 
Os pais, já se tinham levantado há bastante tempo. Antes de saírem de casa deveriam deixar os animais tratados e acomodados. Só voltariam na tarde do dia seguinte.
Ele deu a volta pelos currais reforçando a ração. 

A mulher, em casa, ia arrumando a merenda num cesto, condensa. O farnel foi preparado na véspera.

Conferiu tudo à medida que ia arrumando dentro da condensa. O mais importante era mesmo a comida. Iriam comer com as mãos, sem facas, pratos ou garfos. 
Chegada a hora da bucha, procuravam uma sombra. Depois sentavam-se no chão ao redor da merenda e seguravam nas mãos um pedaço de pão com o conduto ou, numa mão a carne e na outra o pão.
Não havia fruta, mas nunca faltava água e um pouco de vinho.

Desta vez arranjaram o galo grande de casta. Era um grande galo de pescoço pelado. A cauda de penas castanhas e azuis dava-lhe ares de imperador. Era muito bonito.

Não deixava que alguém se aproximasse das suas galinhas. Ele era o maior. Bicava o cão, os gatos e até as pessoas. A dona, que o conhecia muito bem, quando lhes ia dar um pouco de milho ou de verdura tinha de levar um pau.
- Tu tem juizo! Não tentes morder-me! Olha o pau! Um destes dias acabo contigo! Dizia-lhe com um ar ameaçador.
Naquele dia cumpriu a ameaça.
Quando, de madrugada, lhe dava o milho,  o galo fez carreira para ela, mas nesse momento ela mandou-lhe uma tal cacetada que o deixou KO.

- Tu não estavas destinado para o nosso farnel, mas já está, já está! Acabaram-se com as tuas bicadas. Grande estafermo!

Depois de arranjado e cortado em pequenos pedaços meteu tudo num tacho de barro e deixou-o refogar.
Ficou triste por ter matado o galo grande, mas ao mesmo tempo ficou contente pois era um bom farnel para os quatro. Deixou em casa as patas, a cabeça e outras miudezas para no dia seguinte. Depois, quando chegassem a casa, iria fazer um arroz malandro naquele molho do guisado.
  
Temos de nos despachar meninos. É longe e depois o calor começa a apertar!
São cerca de 30 quilómetros de distância de casa até ao Santuário.  Era a primeira vez que levavam os filhos. A menina devia ter onze anos e o irmão ainda não tinha feito os nove de idade.
Foi no ano de 1957, em Julho.
A mana prometeu:
- Minha Nossa Senhora, se o mano passar no exame da terceira classe vamos a Fátima rezar e agradecer.

Depois disse aos pais da sua promessa.
Ficaram muito admirados pelo carinho com o irmão, mas também lhe disseram que não deveria prometer pelos outros e que deveria consultar primeiro os pais.
Quando fores grande decidirás por ti, mas agora ainda és muito nova.

Marcaram a data para um dia de peregrinação. Assim iriam em grupo com outras pessoas.
- Estão prontos? Disse o pai. Então vamos embora. 
No céu havia muitas estrelas e a manhã senti-se fria.
A Mãe carregou o cesto da merenda à cabeça e o pai levava dois cobertores enrolados e presos ás costas como se fosse uma mochila.
Ora então vamos lá com Deus, disse a mãe que se benzeu e começou uma oração. 
Em fila e sem saber das distâncias a percorrer os meninos seguiam satisfeitos, até pensavam que iam para uma festa.

Caminharam por muito tempo até chegarem à cidade de Leiria. O Sol ia muito alto e dava sinais de um dia quente. 
No sopé da encosta da Senhora da Encarnação, mesmo junto às ruínas da antiga praça de touros, sentaram-se à sombra de uma oliveira. Descansaram as pernas e comeram alguma coisa. A mãe dizia:
- Temos de aliviar o cesto. Isto pesa. Agora já vai mais leve. 

- Vamos embora que a viajem é grande. Disse o pai.

Caminhavam acompanhando outros peregrinos que faziam aquele percurso. Alguns quilómetros mais adiante começaram as ladeiras da encosta da Serra. As pernas cansadas doíam. 

- Ainda falta muito? Perguntou o rapazito...

- Estamos a chegar ao Soutocico. Deve ser metade do percurso, respondeu-lhe o pai.
- As minhas pernas doem tanto, reclamava o miúdo.
As subidas eram cada vez mais duras, o cansaço tomava-lhe as forças.
- Pois, mas temos de continuar. Agora não temos escolha.

Seguia no grupo uma família conhecida que levava um burro carregado e uma menina montada. 

O pai na sua imaginação, disse-lhe:
- Agarra-te à albarda do burro. Ele puxa-te!
Entre queixas e muitas lamurias lá foram subindo a serra e descobrindo nomes de localidades diferentes. Curvachia, Arrabal, Freichial, Lagoa, Chainça, Santa Catarina da Serra.
Já perto do Santuário a mãe disse-lhes:
- Já se vê a torre da Basílica. Estamos perto.
Os olhos dos garotos abriram-se ainda mais de tanto cansaço. 

Chegaram ao Santuário bem depois da meia tarde.

Era uma praça enorme, encimada com uma igreja muito grande e diferente de todas as que conheciam. 
No centro havia a Capelinha das Aparições. Era uma construção pobre. Um simples telheiro onde se amontoavam muitas muletas e também coisas de cera que os peregrinos ali iam deixando. Foram estas imagens que sempre guardou. Os peregrinos ali à volta iam rezando e cantando e outras vezes estavam apenas em silêncio.

Procuraram um canto na escadaria da Basílica, de modo a protegerem-se do frio do norte durante a noite e também de onde podiam ver todas as cerimónias.

Estenderam os cobertores e os meninos deitaram-se.
O som dos cânticos e do órgão não eram maiores que o sono que os adormeceu. 
O pior foi quando uns senhores que traziam umas correias por cima dos casacos os mandaram sair dali.
- Não podem pernoitar aqui. Têm de sair já. Vai começar a procissão das velas e ninguém pode estar nas escadarias da Basílica.

O pai pegou na trouxa e a mãe no farnel. Não sei onde passaram a noite, mas sei que a cama foi no chão e o agasalho foram os cobertores.

Acordaram com o som dos sinos e dos cânticos. Estava frio. Aquela gente movimentava-se para todo o lado. 
Começaram as cerimónias e depois da missa realizaram a procissão do adeus. Todos agitavam no ar os lenços brancos e de outras cores. 
Viam-se lágrimas nos olhos de muitas pessoas.
- Oh Fátima adeus, Virgem Mãe adeus.

O regresso foi de autocarro. 

Tão cedo não farão promessas. 
Luiscoelho
2015/Junho