quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A minha dor



Esta noite foi mais fria,
Foi mais dura e insegura.
Levou-me as magras esperanças
Daquilo que eu mais queria,
Gelou-me a alma de dores,
Encheu-me de grande agonia.

O vento norte me despiu
De ti que eu tanto amava, 
Dos sorrisos que te dava.
Desamor e mal amados 
Foram destinos trocados
Que de nada nos serviu.

A chuva fez-me agasalho
Da noite que se fazia.
Roupas finas e macias, 
Mortalhas que já vestiram 
Os que nesta vida sentiram
O amor feito em retalhos.
luiscoelho
13/Outubro/2016


sábado, 1 de outubro de 2016

Pai


Pai 

Desenhei o silêncio do teu rosto
Palavras nunca ditas nos teus olhos
Tempo que juntos construímos  
Dias férteis de ledos desenganos
Grandes sonhos de que nunca desistimos.

Desenhei o silêncio do teu rosto
Sorrisos tracejados pelos anos
Estradas longas por onde caminhamos
Nervuras onde o tempo já fez danos
Distâncias onde sempre nos ligamos.

Desenhei o silêncio do teu rosto
Nas palavras escritas no meu ser
Aquelas que guardo e dou valor
Ser Pai é um ser grande com amor
E vivendo se transforma em criador.
Luíscoelho


Pai - Senti saudade e quis recordar-te
Poema de 2014 - agora reeditado

domingo, 18 de setembro de 2016

A ti Albertina

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(foto google)

A ti Albertina adoeceu nestes últimos dias. Problemas respiratórios e outras sequelas que a medicina não conseguiu reparar.
Estava revoltada. Queria a cura dos seus problemas de saúde. Queria ainda animar-se daquela força com que sempre viveu e lutou, mas os seus dias estavam contados no Grande Livro da vida. Tinha 89 anos.
Recebemos a notícia com pesar.
Juntámos as mãos numa prece simples. Pedimos a Deus que lhe conceda a Paz.
A vida não lhe foi fácil, mas nunca desistiu de lutar.
Enquanto pode ajudou os filhos. Guardou os netos e ultimamente o bisneto.
Não se fazia ouvir para ser respeitada. Algumas vezes bastava um olhar e os miúdos paravam de guerrear.
No seu tempo de maior actividade foi vendedora na praça da Praia da Vieira. Alugou uma banca e todos os dias ali estava com os produtos da sua agricultura expostos para venda.
Batata, couve, feijão verde e seco, cenouras e algumas cabeças de galinhas ou coelhos que criava no pátio da sua habitação.
Tinha pesa à cintura uma bolsa arredondada com dois compartimentos - um para as notas de papel e outro para as moedas.
Alguns dias, a neta mais velha, pedia-lhe emprestada aquela bolsa com algumas moedas e fazia o jogo da avó. Vendia e recebia o pagamento. A Avó Tina gostava de ouvir a neta a fazer contas de somar ou de subtrair como se fosse ela a vendedora.
As horas corriam e a menina brincava Não lhe dando preocupações.
- Olha menina, dizia-lhe, não me percas essas moedas que me fazem falta e ainda porque dizem que algumas moedas na carteira dão sorte. 
A vida continua.
Nós ficamos com a frase que lhe ouvímos algumas vezes:
- Os velhos vão partindo para dar lugar aos novos.

domingo, 11 de setembro de 2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Doem-me as palavras

domingo, 6 de março de 2011


Doem-me as palavras

Doem-me as palavras que não disse
As que guardei apenas para mim,
As que adormeci no calor do peito,
Embrulhando-as num sono sem fim,
Procurando que jamais alguém as visse.

Doem-me as palavras que guardei
Querendo que elas nunca te despissem,
Calei-as no silêncio, mas mesmo assim 
Tive medo que ferido elas saíssem
E te ferissem ainda mais do que pensei

Recordo as outras que te disse
Quando me davas os teus braços
E me adormecias no calor do regaço
Revivo em cada dia aqueles traços
Como se ainda hoje ainda os sentisse.

Amordaço as saudades na garganta
Tenho medo de soltá-las  magoadas
Prefiro tê-las frescas na lembrança
Do que soltas sejam garras afiadas
Esquecendo tanto amor e esperança.
Luíscoelho

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Amor



Amor
Escondo de ti o olhar
Não quero que me vejas chorar.
Esconderei  a dor e o amor
Que um dia quisemos trocar.
Escondo de ti as palavras
Escritas mas nunca usadas.
Esconderei os sonhos reais
Na promessa de sermos leais.
Escondo de ti o que sou
Se fiz bem ou para onde vou.
É melhor que sofra sozinho
Que morrer sem o teu carinho.
luíscoelho
Julho,2016,08

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A flauta

 Resultado de imagem para fotos de flautas de cana
(foto google)

O tempo corria lento.
Agora, aposentado, tudo seria diferente. Ninguém previa o que iria acontecer, mas contava já ter tempo para fazer as coisas que mais gostava e que foi deixando para depois, para o tempo - Quando tivesse vagar. 
Haveria de poder fazer: 
Pinturas, desenhos, leitura ou até trabalhos com madeira e outros materiais. 
Sonhava ainda ter tempo para brincar com os netos. 
Quem sabe se eles lhe iriam ensinar coisas novas que ele nunca aprendeu?

Sentou-se na soleira da porta. O degrau servia-lhe de assento e a parede oferecia-lhe um suporte às suas costas cansadas.
Distraidamente ouvia os passarinhos à distância de um assobio e o seu olhar corria com lentidão todos os terrenos que se alongavam no horizonte. 
O seu quintal era tão pequeno nesta imensidão do mundo e da vida. Lá longe, mais ao fundo, as oliveiras bordavam de sombras o verde das searas. 
Agora já sem forças, aceitava aquele lugar onde antes não podia sentar-se e descansar.

Lentamente recordou os dias de trabalho e de privações. Com a força dos seus braços e muita da sua imaginação transformou tudo ali à sua volta. Foi a sua determinação e teimosia que o fez lutar até ao fim  e, ainda, a preocupação de dar aos filhos uma vida melhor que a sua. Ali arrancou o pão que os alimentou a todos e procurou ainda a água adormecida na aridez e profundidade da terra. Agora tudo era diferente.
- Porque será que Deus nos dá as coisas melhores no fim dos nossos dias? Agora podia viver melhor e sem tantos sacrifícios!...
- Vendo bem as coisas não pode queixar-se...Fez o que pôde.

O silêncio e a quietude das coisas aconchegavam-lhe os pensamentos. Sonhava como quem semeia ou construía como quem brinca.
Distraidamente meteu a mão no bolso e procurou o canivete. Agora era a sua companhia. Habituou-se a ele. Servia de faca ou de ferramenta de trabalho. Abria-o sempre que precisava e depois, no final, fechava-o e voltava a guardá-lo dentro do bolso direito das calças de fazenda bastante polida. Todas as manhãs, quando se vestia, certificava-se que o tinha ali consigo.

Viu, ali perto, um pedaço de cana verde que os netos, cansados da brincadeira, por lá deixaram. Foi buscá-la. Limpou-lhe o lixo e aqueles fios das folhas arrancadas à pressa. Os seus pensamentos seguiam a cana que se ia transformando nas suas mãos. Acertou as pontas com um corte mais delicado. A cana começava a brilhar por tantas voltas que lhe dava e sem querer começaram a criar entre eles uma história.

O tempo parou. A cana rodava cada vez mais e também se colocava em posições opostas. Por vezes, parecia ser ela a dar as ordens.
- Faz assim e depois assim...Desta maneira, fica melhor...Faz mais devagar para que eu me sinta bem nas tuas mãos cansadas.
Fez-lhe uma pequena cavidade a meio e depois outras duas mais abaixo e mais pequenas. Pareciam os botões do bibe do seu neto mais novo.
Levou-a à boca como que a dar-lhe um beijo. Afinal estavam cada vez mais próximos. Parece que a sua relação se acentuava em cada novo toque.

Finalmente soprou uma e muitas outras vezes procurando melhorar o som ou a transmitir-lhe a vida que lhe queria dar. Finalmente os seus dedos grossos e desajeitados foram tapando os buracos abertos e de cada vez saía uma nova melodia. Criou-se entre eles uma empatia e ambos estavam felizes. O velho fechou a navalha e guardou-a no fundo do bolso direito das calças. Nesse momento a flauta, sentindo-se livre e senhora daquelas mãos começou a dançar. Eram duas crianças embaladas no mesmo sonho soltando melodias simples e inexperientes.
Junho/2014
Luíscoelho


Nota texto revisto e reeditado em Junho de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Comentário


Agradece às tuas memórias, à tua narração humilde e interessante. É por aí que te conheço; é por aí que se conhecem as pessoas. Repara: tu podes ter convicções políticas, religiosas ou outras diferentes das minhas. Na verdade, isso pouco me interessa. Pelo que escreves sei que és uma pessoa boa como eu desejo ser. Assim é fácil ser amigo de alguém.

Foto minha num hotel perto de Veneza em Junho/2016
Recebi ontem o presente comentário - Mensagem.
Emocionei-me pela amizade e pelo carinho.
Tomei a decisão de o partilhar pois além de ser uma forma de agradecimento será sem dúvida uma forma de continuar oferecendo-vos o que tenho e o que sou nas memórias do tempo.
Um grande abraço João Teixeira.


2016/Junho24
Luiscoelho

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A tua janela


















Museu de Leiria - foto minha

Vou passando por aqui,
Olhando a tua janela,
E bebendo as cores.
Vou sentindo as palavras
Suaves, soltas e belas
Que me rasgam a alma
De saudade e de dor.

Vou voando na brisa do tempo
Que me afaga a alma
Num doce tormento.
Vou rodando a cabeça 
Neste campo onde sonho
E dobrando as vontades
Sem que tal aconteça

Junho/2016
Luíscoelho

terça-feira, 24 de maio de 2016

O teu amor




O teu amor, meu amor, escreve-se com palavras brancas,
Que rasgam a pele numa melodia que encanta,
E nos deixam perdidos neste mar distante.

O teu amor, meu amor, escreve-se no correr dos ventos
Que incendeiam os olhos de novos pensamentos
E renovam esperanças de um querer reconfortante.

O teu amor, meu amor, escreve-se com o brilho da dor 
Que no reboliço das noites frias tem cruel sabor
E nos engravidam as veias desse veneno errante.  

O teu amor, meu amor, no mar é um porto de abrigo
Mas procurando refúgio encontramos duro castigo
De amar por amor cada vez mais forte e constante. 

O teu amor, meu amor, somos nós as estrelas e a cor,
Amando neste mar as dores são o querer viver
Sendo sempre nós, os melhores amantes.

luíscoelho
Maio/2016

domingo, 1 de maio de 2016

Dia da Mãe






Mãe
Queria dizer-te tanto
Queria olhar-te ainda mais,
Mas as palavras são o meu pranto
E de silêncio vesti meus ais.

Eterna saudade

Luíscoelho

2016/Maio/01

domingo, 24 de abril de 2016

25 de Abril





(foto minha)

25 de Abril de 2016
Aniversário do dia da liberdade
Um grito que continua a viver-se no silêncio dos campos,
Um grito que continua a viver-se no pão que nos roubam,
Que continua a rasgar-nos nos insultos que nos gritam
Vociferando palavras vazias de respeito,
Vazias de educação, saúde, justiça e igualdade.

25 de Abril festa da liberdade para os políticos 
Que se vestem das cores de impunidade
E enchem os tribunais da mais crua falsidade.
luiscoelho
25/Abril/2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

A dor que trago no peito





(foto minha)

A dor que trago no peito
Acorda-me de madrugada
E quer eu queira ou não queira
Deixa-me muito amargurado
São recordações, são lembranças
Coisas de que não sou culpado
Vidas próprias do meu fado.

E quando o dia anoitece
Maior se tece a minha dor
Mais forte que tudo mais.
Tem aquele amargo sabor
Que se solta em leves ais.
Que mais queres tu de mim
Porque me segues assim?

Depois no silêncio de noite
Mais tu me fazes sofrer.
Se vivo eu não te despeço,
Mas tu já não me deixas viver.
Se amar-nos não podemos
Porque pedes tão alto preço?
Morrer já, eu não mereço.
Luíscoelho
Abril-05/2016

domingo, 27 de março de 2016

Pascoa - 2016

(foto google - o Ressuscitado ressuscita os mortos)

Gostaria de partilhar o acontecimento que mais me marcou nesta Pascoa.
Pouparei nas palavras desnecessárias.
Estávamos sozinhos em casa. Este ano não pudemos conviver com os nossos pais por terem falecido, nem com os nossos filhos por estarem ausentes por motivos de trabalho.

Cerca das doze horas a minha mulher disse:
- Podes pôr os talheres na mesa, eu vou fazer uma salada e muito rapidamente levo as coisas para almoçarmos.
Ainda não tínhamos terminado quando alguém tocou à campainha. 

- Boa tarde e boas festas para todos, disse-nos a Maria.
Gostava de falar com a a tua mulher. Entraram-me em casa, fecharam todas as portas e levaram as chaves. Estou desesperada. Já não sei o que hei-de fazer. Tenho 85 anos e não consigo entender tanta maldade. Pago as rendas, não devo nada ao senhorio mas ele não me deixa em paz.
Ontem insultou-me e ameaçou-me que eu tinha de sair daquela casa. Falou alto para quem quis ouvir.
Até fiquei envergonhada com tantas falsidades.

- A Maria tem de participar isto à Polícia.
- Eu já nem sei dos números que eu tinha junto do telefone. Devem tê-los levado também.
- Já almoçou?
- Não, mas vou arranjar alguma coisa quando chegar a casa se ainda conseguir entrar pela porta das trazeiras.

 - Venha cá! Entre e sente-se. Vou arranjar-lhe alguma coisa. Nós já almoçámos. Os pratos ainda estão na mesa.
Servimos-lhe um almoço simples e um copo de sumo. Depois dentro de um saco onde trazia um papel e uma caneta colocámos duas sandes e alguma fruta.
- Tenha coragem Maria. A vida está a ser muito dura, mas há-de haver alguma saída.
Amanhã com mais calma vai ligar para a polícia e para a Assistente Social que tem acompanhado o seu caso. Eles haverão de a ajudar. As autoridades devem ver estas situações.

Mais conformada e acarinhada a Maria lá seguiu de regresso a casa.
Nós trocamos um olhar silencioso e recordámos outros momentos. 
Jesus Ressuscitado visitou-nos e partilhou parte do Seu sofrimento.
Vamos todos partilhar o Pão de Cristo. Quem o recebe deve partilha-lo e será abençoado.
luíscoelho
27 de Março de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

Desilusão





(Flores do meu jardim-foto minha)

Amor que me feriste a saudade
E me anoiteceste sem piedade
Deixa-me gemer, gritar à vontade
E procurar os cantos desta solidão.
Tu não sabes do amor toda a verdade,
Nem eu sei do amor toda a razão.

Vem o calor do tempo que o vento leva,
Mas  para a noite longa maior dor reserva.
Abraça-me e a força do amor já se renova,
Já aquece e fortalece o bater do coração,
Coisas simples que num abraço se comprova,
E também redobra a força desta paixão.

Amor, palavra solta, onde se perde a liberdade
E a vida renasce com sabor de igualdade.
Olhares que se vivem e partilham sem maldade
Vidas que se geram na própria identidade. 

luíscoelho
Março 25/2016

sábado, 19 de março de 2016

Pai




(foto minha) 

Longe ficam os dias do nosso olhar
Esse tempo que hoje quero recordar,
E longe ficam os dias de te ouvir falar
Esse tempo que não podemos  retomar.
Vem a saudade crescendo no meu peito
Semeando muita dor com mais efeito,
E novas lágrimas recordam o teu olhar
Naquele abraço que só tu sabias dar.
Fizeste-me parte desta vida e de ti
Tantas coisas que nunca mais esquecerei
Foi amor que recebi e também dei
Caminhos construídos e vividos
No grande amor da família que amei.
Pai, palavra simples mas muito bela
Recordar-te é acender-te na estrela mais singela.
luíscoelho
2016/03/19

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sertela

Resultado de imagem para fotos enguias

(foto google)

Naquela noite agasalharam-se mais cedo na cama. A chuva e o vento eram ameaçadores. O fumo da lareira espalhava-se por toda a casa. Parecia que as cavacas ardiam a medo.
Já tinham ceado. Um prato de sopa. 
Depois da ceia, gostavam de fazer serão. Conversavam uns com os outros enquanto se aqueciam. O crepitar das chamas era um convite para ficarem mais tempo ao borralho, mas hoje era impossível.

- Vamos para a cama! Disse o pai. Aqui não conseguimos estar.
- Na cama estamos mais quentinhos, acrescentou a mãe.
Parecia que o temporal não os assustava tanto a eles como aos filhos. Já tinham vivido outros dias e outras noites assim. Depois confiavam em Deus. Sempre acreditaram que Ele os guardaria de todo o mal.

De repente, um grande trovão, abanou toda a casa. A mãe começou a ladainha de Santa Barbara.
“Santa Barbara bendita que no Céu está escrita, afastai de nós todos os perigos e esta trovoada para muito longe, onde não faça mal a ninguém”
Depois rezou um pai-nosso e uma avé-maria.
Ao mesmo tempo que rezava levantou a candeia de azeite para ajudar os rapazes a deitarem-se.

Era um quarto simples com acesso directo da cozinha. 
A cama era uma enxerga em cima de um estrado de tábuas apoiado em dois cavaletes. Os garotos acomodaram-se os três e a mãe aconchegou-lhes a roupa. O calor dos corpos ajudava-os a sentirem-se melhor.

Os pais apagaram a fogueira. Levantaram as cavacas encostando-as à parede e depois juntaram as brasas para um pequeno monte cobrindo tudo com a cinza. Assim se conservava o calor e algumas brasas até ao dia seguinte. 
Nessa noite, os garotos, dormiram até mais tarde. Quando acordaram já a mãe estava a fazer o almoço para todos. A chuva tinha amainado, mas o vento e o frio teimavam em continuar. 
Uns atrás dos outros foram-se juntando ao pé da fogueira.

- O pai? Perguntou um deles.
- Anda ali na rua a procurar minhocas, respondeu a mãe. 
Hoje o tempo não dá para trabalhar e ele pensou ir à sertela. (pesca de enguias no rio). 
- Mas eu também quero ir, disse o mais velho.
- Não! Com esta chuva ninguém sai aqui de casa. Vocês ainda são muito pequenos para pescarem e não conhecem os perigos do rio.
Ainda conversavam animadamente quando o pai entrou na alpendurada trazendo um balde com um punhado de minhocas.

Ouvi-o pedir à mãe uma agulha e linha. Depois sentou-se no carro de bois e começou a fazer uma linha de minhocas. Quando acabou, dobrou tudo num pequeno molho e atou-o num cordel mais forte  e mais comprido. Finalmente atou o cordel com as minhocas numa vara e junto das minhocas um peso de chumbo para as fazer mergulhar até ao fundo do rio. As enguias nadam sempre junto ao leito do rio.

Recordo o pai com um casaco mais grosso e abrigando-se com um guarda-chuva a dizer-nos:
-Até logo! E sem mais demoras, saiu a caminho dos campos em direcção ao rio. 
Procurou um recanto para se proteger do frio e onde a corrente não fosse muito forte. Depois sentou-se e mergulhou as minhocas no rio. Os seus olhos estavam atentos aos movimentos da vara. 
- Estão a picar, disse e num segundo movimento, levantou a sertela em direcção ao balde de madeira e deixou cair uma enguia lá dentro.   
Voltou a repetir estes gestos durante mais de duas horas.
Depois o corpo começou a arrefecer e ele levantou-se, guardou as suas coisas e disse:
- Bem, vou até a casa! Para hoje chega.

As enguias gostam das minhocas e quando as comem vão também engolindo a linha onde as prenderam. Quando o pescador puxa a sertela elas vêm presas às minhocas e  à linha. 
O pai chegou a casa todo molhado e cheio de frio.
Pousou  o balde e foi aquecer-se à fogueira. Os olhos dos garotos seguiam os movimentos das enguias que teimavam em fugir. 
Por mais que dissesse:
- Não mexam aí! Tirem daí as mãos! Não lhe adiantou nada. Ele sabia que a nossa teimosia seria forte demais.
Todos quisemos ter força para segurar uma enguia nas nossas mãos , mas elas sempre nos escapavam por entre os dedos. 
luiscoelho

Março2016