segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Esta noite


Foto
 

Esta Noite
Sonhava dar-te um abraço.
Deixar-te muito apertado
Sensivelmente acordado 
E muito, muito mais acarinhado.
Mas, acordei alvoroçado,
O meu sonho foi trocado.
Nem te vi, nem te toquei
E  fiquei todo lixado.
Eu estava todo nu,
Já te tratava por tu,
Sem isto ter aceitado.
Que sonho desajustado 
Levantei-me atarantado
Procurei as minhas roupas
Para sair deste fado.
Junho/2015
Luiscoelho

A Desrisca


livros
(foto google)


A quaresma era um tempo de penitência.
Em todas as aldeias a vida corria à sombra da Igreja que por seu lado controlava tudo e todos.
Nas leis da Igreja Católica existem mandamentos que os católicos devem observar.
Um deles diz: 
Todo o bom cristão deve santificar os Domingos e dias Santos de Guarda.
Devem também, nesses dias, assistir à missa completa.
Outro dos mandamentos diz que devem confessar-se e comungar uma vez por ano, na Páscoa da Ressurreição.


Para controlar estes preceitos havia a Desrisca.
Um livro grande onde constavam  os nomes de todas as famílias da Freguesia, divididos por lugares de residência.
Depois das cerimónias, missa e ofícios na Igreja, todos se dirigiam à Casa Paroquial para o senhor padre os desriscar no livro grande.
Conforme ia chamando ia desriscando no livro e assim ficava cumprido aquele preceito.


Certo dia, o Sr Abade chamou uma paroquiana que não tinha "papas na língua".
O seu nome era apenas Maria de Jesus, mas como haviam muitas só com este nome, e para as identificar a todas juntavam-lhe o apelido do marido ou do lugar de residência.
Esta Senhora era conhecida por Maria de Jesus Grilo. Talvez o Marido fosse alguém com dotes de boa qualidade.
Quando o Sr Abade chamou - Maria de Jesus Grilo!
Logo aquela respondeu:
- Corte lá o Grilo Sr Abade. Corte lá o grilo. O Sr não precisa dele e a mim, pobre viúva, não me faz falta.
Os presentes tiveram dificuldade em conter o riso. Havia medo e respeito.
O Abade rectificou e riscou o nome da paroquiana.


A mãe contava que iam muito cedo para a Igreja para cumprirem estes preceitos. Formavam grupos e levavam tochas acesas para se guiarem pelos caminhos e carreiros que os separavam da Igreja. Era longe.
A celebração da Missa era sempre antes do Sol nascer.
Durante a caminhada entoavam cânticos ou rezavam as ladaínhas.


Ao chegarem à Igreja apagavam as suas tochas num canto da parede que estava sempre preto dos tições. Era um costume antigo.
Um dia, o Padre aborrecido por esta tradição, chamou a atenção das pessoas que ali continuavam a apagar as tochas apertando-as contra a parede.
- Apaguem as tochas na rua e no chão. Esta parede está uma vergonha, toda suja.
Mas logo alguns lhe responderam
- Sempre foi assim e assim continuará a ser.
O mais atrevido ainda disse mais:
- O meu avô esmurrou aqui, o meu pai também e eu também irei esmurrar aqui como sempre fiz quer o Sr queira ou não queira! Ora essa!...


 Ouvi contar ainda que o antigo prior era cego.Teve a doença da lepra. A empregada guiava-o para o confessionário onde ele ouvia a confissão e perdoava os pecados em nome de Deus.
Era um homem cheio de bondade, além de ser cego.
Os mais novos diziam:
- Eu quero confessar-me ao padre Jacinto.
Ele não vê e eu posso dizer-lhe todos os meus pecados.

O outro padre era mais novo e muito finório. As raparigas e os rapazes diziam que não lhe podiam contar tudo.
- É padre é padre, mas é um homem como os demais...diziam   os mais velhos.
luiscoelho
Junho/2015

A cor do desejo




Amanheceu nos lábios prenhes de calor,
Semeados de silêncios, clareando o dia.
Misturaram-se as cores com muita magia,
E transbordaram duas mãos de muito amor.
Ambos desejavam e também lhes competia
Esta dança fascinante e de bela ousadia.

Beberam sons em gestos de acordar
Teceram quadros cheios numa só cor
Dobraram os cantos sem ângulos de dor
E amaram num querer sem se cuidar
Porque a vida se fazia assim neste alvor
E nada mais se pode ter sem este amor.

Coseram num só ponto a força do seu querer 
Selaram o acordo de duas vidas num só viver
E amaram-se ainda mais neste amanhecer.
Luiscoelho
Junho/2015

Um poema ao anoitecer



(foto do blogue - Flor de Jasmim )

Um poema ao anoitecer
Faz-se de pequenas carícias,
Gestos que se soltam do olhar.
De palavras simples e míticas
E dos sonhos acorrentados,
Como campos por nós semeados
Pelo sabor das conquistas.

Um poema ao anoitecer
Faz-se na ponta dos dedos,
Desenhando os nossos segredos,
Desejos, sonhos sem medos
E tudo quanto nos faz viver
Nesta vida onde o querer
Será maior que o nosso ser

Um poema de anoitecer
Faz-se de estrelas cintilantes
De amores e de amantes.
São anoiteceres vibrantes
Até os beijos são presentes
Que todos vamos tecer.
Luíscoelho
Julho/2015/10

Perdi-me no mar


Perdi-me no mar
De te amar a brincar,
Sentindo a dor 
De me querer dar
Mas perdi-me no canto 
De te amar sem pensar.
Cantei à noite
E cantei de  dia
Para te ver despertar,
Até mesmo a dormir
Eu te quis sentir
Cá dentro do peito 
E só desse jeito
Poderemos voar.

Perdi-me no mar
De amar os teus beijos  
E no calor dos desejos
Segui a remar.
O amor é brilhante
Mas em cada partilha 
Nada é semelhante.
Perdido eu vivi 
E depois que te vi
Não te quis mais perder, 
Só com o teu amor eu quero viver,
Mas se ele partir para outro lugar
Prefiro morrer a ter de sofrer 
Tão longo penar.
luiscoelho
Agosto2015

Outono


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(Foto google)

O dia estava triste como eram tristes os dias sem Sol. Era Outono. No Borda D'Agua dizia - Tempo instável. 
Haviam no entanto algumas abertas. Momentos de Sol radiante. As nuvens espessas desapareciam misteriosamente para depois regressarem mais escuras.

- Que tempo doentio!...Muito enfadonho este tempo. Que Deus me perdoe. Dizia o ti Tóino a meia voz. 
Também ele estava no Outono da vida. Já passava dos setenta.
Tinha um corpo seco o que lhe escondia a idade.

Todos os dias se levantava com muita energia para cumprir as suas tarefas. Ele a mulher davam-se bem. Tratavam-se agora com maior carinho. Dava gosto ouvi-los falar entre si.
Não enchiam a boca com as palavras: 
- Meu amor, minha querida ou outras coisas que hoje se ouvem com muita frequência.

Agora, no final da sua caminhada, sentiam mais necessidade um do outro. Os filhos emigraram. Ainda não tinham despido os cueiros e já se tinham aventurado na busca de uma vida melhor.
O Ti Tóino e a sua Maria Emília não se opuseram. Choraram alguns dias, mas depois conformaram-se. Até acharam bem que os filhos emigrassem.

Aqui temos a nossa casa e as nossas raízes, mas só isto não lhes chega. Eles precisam de viver a vida.
Esta aventura fica bem aos mais novos. Têm sangue novo e capacidade de se adaptarem. 

Hoje o mundo parece ser mais pequeno. Os povos movimentam-se para todo o lado. Enquanto uns fogem da guerra e perseguições outros fogem da fome e das calamidades naturais.
Nós fomos criados com os nossos pais, mas hoje tudo está mudado.

- Ó Toino se fossemos mais novos, faríamos como eles. Disse-lhe a mulher, a ti Maria Emília.
- Gostavas de ir comigo mulher ? 
Haveríamos de mostrar a esta gente aquilo que somos capazes!
Bem, bem...Agora deixemo-nos desses sonhos. Tomara eu que tu não me faltes mulher. Nem sei o que seria de mim viver sem ti.

- Ai Tóino, Tóino , tu não me fales assim...
Tu nem sabes o que dizes!
Como poderia eu viver neste mundo sem a tua companhia? Que Deus me leve a mim primeiro.
- Sabes mulher?
A nossa conversa está triste como este tempo...
Vamos cuidar do nosso quintal e das nossas coisas.
Enquanto estivermos juntos a vida tem mais sabor!
Depois, será o que Deus quiser, mas não vamos pensar nisso agora.
Vamos organizar o nosso tempo.
Graças a Deus não precisamos de correr. Não temos dívidas e ainda nos sobra para o pão e para a sopa de todos os dias. 
Dinheiro, dinheiro não temos de sobra, mas como estamos habituados já nem reclamamos de nada.

Ai homem nisto tu tens razão. Algumas vezes acordo a pensar que este mundo é muito injusto.
Uns têm muito e outros não têm nada.
Luiscoelho
Agosto/2015

Luar de Agosto


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(foto google)
As minhas mãos percorrem
Os traços do teu rosto macio. 
Elas me acordam outras estradas,
Caminhos percorridos no cio.
Teimosamente quero amar-te.
Quero entrar nos teus sonhos
Que se desfazem neste amanhecer
Que o luar de Agosto nos faz viver.
Nossas línguas se cruzam
E se trocam de medos perdidos,
Desencontros sofridos,
Searas semeadas de saudade
Em tempos passados, vividos,
Amores nunca mais repetidos.
luíscoelho
Agosto/2015