quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A noite é minha amante



A noite estendeu-me os braços,
Quis ser minha amante neste tempo,
Aconchegou-me ao peito escuro
E eu deixei-me adormecer neste alento. 
Era bom aquele abraço embora duro
E com tanto amor deixei de ter sentimento.

As noites assim dormidas são mais longas, 
Semeiam-nos de sonhos onde navegamos,
Cruzamos oceanos, vencemos tempestades 
Vivemos outros mundos onde não estamos
E até saboreamos outras coisas e vontades
Mais cruas que estas com que sonhamos.

Os braços desta noite eram longos e eram frios
Até no calor do peito se soltavam arrepios. 
Quando quis soltar-me desta força já não podia, 
Nem sei se não tinha forças ou se não queria, 
E assim se alongou sem ver a minha dor
Que me vestiu de amargas ilusões sem outra cor.
luíscoelho
27/Out/2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dentro de mim




Dentro de mim corre um rio,
Um rio que me leva ao mar,
Um rio que me beijou a correr
Nas águas que eu não quis travar
Um rio de grandes correntes
Que nas margens me obrigou a parar.

Dentro  de mim corre um rio,
Um rio que me divide em dois.
Suas águas descem apressadas,
As correntes se formam depois,
Regressando ainda às nascentes
Onde o amor as faz renovadas.  

Dentro de mim corre um rio
Um rio que se arrasta levemente.
Se navegamos contra a corrente
As forças cedem facilmente
E do amor devoram a semente
E nos separam mui tristemente.
luiscoelho

2016/Out/20

domingo, 16 de outubro de 2016

Mãe - 66 Parabéns



A vida dá muitas voltas
E muitas já ela deu,
Desejamos que rode sempre
Como as estrelas do Céu,
E que cada aniversário
Seja um presente de Deus.
Parabéns, felicidades
Não é tudo o que queremos
Pois desejamos muito amor,
Com pão, saúde e alegria,
E que cada despertar
Seja um viver nesta harmonia.
luíscoelho
15/Outubro/2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A minha dor



Esta noite foi mais fria,
Foi mais dura e insegura.
Levou-me as magras esperanças
Daquilo que eu mais queria,
Gelou-me a alma de dores,
Encheu-me de grande agonia.

O vento norte me despiu
De ti que eu tanto amava, 
Dos sorrisos que te dava.
Desamor e mal amados 
Foram destinos trocados
Que de nada nos serviu.

A chuva fez-me agasalho
Da noite que se fazia.
Roupas finas e macias, 
Mortalhas que já vestiram 
Os que nesta vida sentiram
O amor feito em retalhos.
luiscoelho
13/Outubro/2016


sábado, 1 de outubro de 2016

Pai


Pai 

Desenhei o silêncio do teu rosto
Palavras nunca ditas nos teus olhos
Tempo que juntos construímos  
Dias férteis de ledos desenganos
Grandes sonhos de que nunca desistimos.

Desenhei o silêncio do teu rosto
Sorrisos tracejados pelos anos
Estradas longas por onde caminhamos
Nervuras onde o tempo já fez danos
Distâncias onde sempre nos ligamos.

Desenhei o silêncio do teu rosto
Nas palavras escritas no meu ser
Aquelas que guardo e dou valor
Ser Pai é um ser grande com amor
E vivendo se transforma em criador.
Luíscoelho


Pai - Senti saudade e quis recordar-te
Poema de 2014 - agora reeditado

domingo, 18 de setembro de 2016

A ti Albertina

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(foto google)

A ti Albertina adoeceu nestes últimos dias. Problemas respiratórios e outras sequelas que a medicina não conseguiu reparar.
Estava revoltada. Queria a cura dos seus problemas de saúde. Queria ainda animar-se daquela força com que sempre viveu e lutou, mas os seus dias estavam contados no Grande Livro da vida. Tinha 89 anos.
Recebemos a notícia com pesar.
Juntámos as mãos numa prece simples. Pedimos a Deus que lhe conceda a Paz.
A vida não lhe foi fácil, mas nunca desistiu de lutar.
Enquanto pode ajudou os filhos. Guardou os netos e ultimamente o bisneto.
Não se fazia ouvir para ser respeitada. Algumas vezes bastava um olhar e os miúdos paravam de guerrear.
No seu tempo de maior actividade foi vendedora na praça da Praia da Vieira. Alugou uma banca e todos os dias ali estava com os produtos da sua agricultura expostos para venda.
Batata, couve, feijão verde e seco, cenouras e algumas cabeças de galinhas ou coelhos que criava no pátio da sua habitação.
Tinha pesa à cintura uma bolsa arredondada com dois compartimentos - um para as notas de papel e outro para as moedas.
Alguns dias, a neta mais velha, pedia-lhe emprestada aquela bolsa com algumas moedas e fazia o jogo da avó. Vendia e recebia o pagamento. A Avó Tina gostava de ouvir a neta a fazer contas de somar ou de subtrair como se fosse ela a vendedora.
As horas corriam e a menina brincava Não lhe dando preocupações.
- Olha menina, dizia-lhe, não me percas essas moedas que me fazem falta e ainda porque dizem que algumas moedas na carteira dão sorte. 
A vida continua.
Nós ficamos com a frase que lhe ouvímos algumas vezes:
- Os velhos vão partindo para dar lugar aos novos.

domingo, 11 de setembro de 2016