segunda-feira, 7 de março de 2016

Sertela

Resultado de imagem para fotos enguias

(foto google)

Naquela noite agasalharam-se mais cedo na cama. A chuva e o vento eram ameaçadores. O fumo da lareira espalhava-se por toda a casa. Parecia que as cavacas ardiam a medo.
Já tinham ceado. Um prato de sopa. 
Depois da ceia, gostavam de fazer serão. Conversavam uns com os outros enquanto se aqueciam. O crepitar das chamas era um convite para ficarem mais tempo ao borralho, mas hoje era impossível.

- Vamos para a cama! Disse o pai. Aqui não conseguimos estar.
- Na cama estamos mais quentinhos, acrescentou a mãe.
Parecia que o temporal não os assustava tanto a eles como aos filhos. Já tinham vivido outros dias e outras noites assim. Depois confiavam em Deus. Sempre acreditaram que Ele os guardaria de todo o mal.

De repente, um grande trovão, abanou toda a casa. A mãe começou a ladainha de Santa Barbara.
“Santa Barbara bendita que no Céu está escrita, afastai de nós todos os perigos e esta trovoada para muito longe, onde não faça mal a ninguém”
Depois rezou um pai-nosso e uma avé-maria.
Ao mesmo tempo que rezava levantou a candeia de azeite para ajudar os rapazes a deitarem-se.

Era um quarto simples com acesso directo da cozinha. 
A cama era uma enxerga em cima de um estrado de tábuas apoiado em dois cavaletes. Os garotos acomodaram-se os três e a mãe aconchegou-lhes a roupa. O calor dos corpos ajudava-os a sentirem-se melhor.

Os pais apagaram a fogueira. Levantaram as cavacas encostando-as à parede e depois juntaram as brasas para um pequeno monte cobrindo tudo com a cinza. Assim se conservava o calor e algumas brasas até ao dia seguinte. 
Nessa noite, os garotos, dormiram até mais tarde. Quando acordaram já a mãe estava a fazer o almoço para todos. A chuva tinha amainado, mas o vento e o frio teimavam em continuar. 
Uns atrás dos outros foram-se juntando ao pé da fogueira.

- O pai? Perguntou um deles.
- Anda ali na rua a procurar minhocas, respondeu a mãe. 
Hoje o tempo não dá para trabalhar e ele pensou ir à sertela. (pesca de enguias no rio). 
- Mas eu também quero ir, disse o mais velho.
- Não! Com esta chuva ninguém sai aqui de casa. Vocês ainda são muito pequenos para pescarem e não conhecem os perigos do rio.
Ainda conversavam animadamente quando o pai entrou na alpendurada trazendo um balde com um punhado de minhocas.

Ouvi-o pedir à mãe uma agulha e linha. Depois sentou-se no carro de bois e começou a fazer uma linha de minhocas. Quando acabou, dobrou tudo num pequeno molho e atou-o num cordel mais forte  e mais comprido. Finalmente atou o cordel com as minhocas numa vara e junto das minhocas um peso de chumbo para as fazer mergulhar até ao fundo do rio. As enguias nadam sempre junto ao leito do rio.

Recordo o pai com um casaco mais grosso e abrigando-se com um guarda-chuva a dizer-nos:
-Até logo! E sem mais demoras, saiu a caminho dos campos em direcção ao rio. 
Procurou um recanto para se proteger do frio e onde a corrente não fosse muito forte. Depois sentou-se e mergulhou as minhocas no rio. Os seus olhos estavam atentos aos movimentos da vara. 
- Estão a picar, disse e num segundo movimento, levantou a sertela em direcção ao balde de madeira e deixou cair uma enguia lá dentro.   
Voltou a repetir estes gestos durante mais de duas horas.
Depois o corpo começou a arrefecer e ele levantou-se, guardou as suas coisas e disse:
- Bem, vou até a casa! Para hoje chega.

As enguias gostam das minhocas e quando as comem vão também engolindo a linha onde as prenderam. Quando o pescador puxa a sertela elas vêm presas às minhocas e  à linha. 
O pai chegou a casa todo molhado e cheio de frio.
Pousou  o balde e foi aquecer-se à fogueira. Os olhos dos garotos seguiam os movimentos das enguias que teimavam em fugir. 
Por mais que dissesse:
- Não mexam aí! Tirem daí as mãos! Não lhe adiantou nada. Ele sabia que a nossa teimosia seria forte demais.
Todos quisemos ter força para segurar uma enguia nas nossas mãos , mas elas sempre nos escapavam por entre os dedos. 
luiscoelho

Março2016

23 comentários:

  1. A luta pela sobrevivência no que ela tem de melhor: cuidar dos nossos, cuidar de nós, tudo envolto num enorme manto de afectos.
    Muito bem, Luís!

    Abraço

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  2. rsssss...Segurar enguias não é pra qualquer um,rs Muito bem contado!Gostei! abraços,chica

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  3. Belíssimo. Este texto fez-me lembrar a minha infância em que, o meu avó ia para a perca, à sertela, e e eu com uma tia, atravessávamos o rio com agua pelo joelho para lhe levar o almoço (naquela altura dizia-se jantar) Era uma alegria quando quando trazia um saco cheio. Como não havia fartura de nada, tudo era bem vindo!

    Parabéns pelo maravilhoso texto

    Beijinhos e obrigada
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  4. Relato/Conto duma realidade que ainda se vai passando nos nossos dias.
    A vida dura duma pobreza injusta.

    Abraço
    SOL

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  5. Segurar uma enguia só com as mãos cheias de sal.
    Um texto muito bem escrito , amigo. Como sempre maravilhei-me.
    Um abraço

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  6. Olá, Luís,bem contada, relembrando tempos idos,vivido em não grande fartura, por isso, para comer , tem que correr atrás ou melhor, trazer sua rede de pesca cheia de enguias...
    agradeço pelo carinho,belos dias, abraços!

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  7. Texto muito bom que nos recorda tempos passados (e hábitos que se vão perdendo), quando a necessidade obrigava a lutar pela subsistência em condições bem adversas.
    Lembro-me, quando eu era pequenina, de uma "reza" a Santa Bárbara, para aplacar a trovoada. Começava assim: Santa Bárbara se levantou, seu pezinho direito calçou, e Jesus lhe perguntou: onde vais Bárbara? - E continuava por aí fora...

    Desejo um óptimo Domingo.

    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  8. Oi Luis,
    Com frio ficaram "a ver navios".
    Aconteceu, hoje não aconteceria, os filhos tem mais informações que nós
    Beijos
    Lua Singular

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  9. Bom dia, o tempo não para, com lá vamos nós com ele ao mesmo ritmo, tudo passa, novas coisas acontecem, as recordações ficam.
    AG

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  10. Me encanta sempre ler um conto assim bonito, simples e de palavras que parecem fluir livremente.
    Gosto e gostaria de saber faze-lo.
    Parabéns e obrigada pela passadinha por lá.

    * são fotos Luis. Boas de serem transformadas em telas .
    um abraço

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  11. Olá Luis,

    Lindas lembranças, narradas com muito encanto.
    Lembrei-me da minha mãe nos momentos de raios e trovões. Ela tinha muito medo e logo começava suas súplicas a Santa Bárbara e à São Jerônimo.
    Fiquei imaginando o malabarismo das crianças para tentar segurar as enguias-rs.

    Abraço.

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  12. O passado está sempre presente. As crianças marcam nas memórias como quem escreve nas pedras. Abraço

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  13. Há verdades e factos bem mais difíceis de provar do que agarrar enguias à mão ( mesmo com sal ! ).

    Um abraço.

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  14. Uma história muito bem contada. Não sabia que a pesca de enguias no rio se chamava "sertela". Quem diz que não andamos sempre a aprender?
    Um abraço.

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  15. Como sempre amigo Luís, emocionei-me ao ler o seu conto.
    É tudo descrito com tanto sentimento e realismo que fico presa na história e sinto que até faço parte dela.

    Um beijinho grato por este momento

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  16. Cá estou no seu novo blogue.
    Com a mesma atenção de sempre a ler as suas
    maravilhosas histórias, como esta.
    Virei sempre.
    Um abraço amigo.
    Irene Alves

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  17. Um belo conto/relato de uma realidade que só não é triste de todo, por estar envolta num manto de calor e ternura familiar.

    Ainda não há muitos dias ouvi esta frase que me ficou a latejar no coração:
    "Num lar, onde só há amor para comer, não se morre de fome".

    Obrigada, Luís.
    Um abraço

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  18. Muito boa, Luis! Aqui a gente diz muito que tal sujeito é liso como uma enguia... É aquele que nunca se consegue pegar aprontando, sempre escapa.
    Abraços!

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  19. Mais uma vez me fizeste lembrar tempos idos, tempos dificeis, onde havis só o calor da lareira que não poucas vezes enchia a cozinha com uma fumarada insuportável; nao havia recuperadores de calor e na cama era um peso de mantas que nem nos podiamos mexer. Enfim....
    Nunca tinha ouvido falar dessa sertela e desse modo de pescar enguias; na minha familia não havia pescadores. A luta pela sobrevivência era outra, Beijinhos,Luis e obrigada. Aprendo sempre alguma coisa contigo

    Emília

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  20. Muito bom Luis, a gente aprende e entende como certas enguias sempre conseguem escapar.
    Beleza de construção com ótima reflexão.
    Meu terno abraço na boa semana.

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  21. Procurava outro post que me aparecia na sidebar, mas afinal sai-me este que já comentei.
    Um abraço e bom fim de semana

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