(foto google)
Naquela noite agasalharam-se mais cedo na cama. A chuva e o vento eram
ameaçadores. O fumo da lareira espalhava-se por toda a casa. Parecia
que as cavacas ardiam a medo.
Já tinham ceado. Um
prato de sopa.
Depois da ceia,
gostavam de fazer serão. Conversavam uns com os outros enquanto se aqueciam. O
crepitar das chamas era um convite para ficarem mais tempo ao
borralho, mas hoje era impossível.
- Vamos para a cama!
Disse o pai. Aqui não conseguimos estar.
- Na cama estamos
mais quentinhos, acrescentou a mãe.
Parecia que o
temporal não os assustava tanto a eles como aos filhos. Já tinham vivido outros
dias e outras noites assim. Depois confiavam em Deus. Sempre acreditaram que
Ele os guardaria de todo o mal.
De repente, um grande
trovão, abanou toda a casa. A mãe começou a ladainha de Santa Barbara.
“Santa Barbara
bendita que no Céu está escrita, afastai de nós todos os perigos e esta
trovoada para muito longe, onde não faça mal a ninguém”
Depois rezou um
pai-nosso e uma avé-maria.
Ao mesmo tempo que
rezava levantou a candeia de azeite para ajudar os rapazes a deitarem-se.
Era um quarto simples com acesso directo da cozinha.
A cama era uma
enxerga em cima de um estrado de tábuas apoiado em dois cavaletes. Os garotos acomodaram-se
os três e a mãe aconchegou-lhes a roupa. O calor dos corpos ajudava-os a
sentirem-se melhor.
Os pais apagaram a fogueira. Levantaram as cavacas encostando-as à parede e depois juntaram as brasas para um pequeno monte cobrindo tudo com a cinza. Assim se conservava o calor e algumas brasas até ao dia seguinte.
Nessa noite, os garotos, dormiram
até mais tarde. Quando acordaram já a mãe estava a fazer o almoço para
todos. A chuva tinha amainado, mas o vento e o frio teimavam em continuar.
Uns atrás dos outros
foram-se juntando ao pé da fogueira.
- O pai? Perguntou um deles.
- Anda ali na rua a
procurar minhocas, respondeu a mãe.
Hoje o tempo não dá
para trabalhar e ele pensou ir à sertela. (pesca de enguias no rio).
- Mas eu também quero
ir, disse o mais velho.
- Não! Com esta chuva
ninguém sai aqui de casa. Vocês ainda são muito pequenos para pescarem e não
conhecem os perigos do rio.
Ainda conversavam
animadamente quando o pai entrou na alpendurada trazendo um balde com um
punhado de minhocas.
Ouvi-o
pedir à mãe uma agulha e linha. Depois sentou-se no carro de
bois e começou a fazer uma linha de minhocas. Quando acabou, dobrou tudo num
pequeno molho e atou-o num cordel mais forte e mais comprido. Finalmente
atou o cordel com as minhocas numa vara e junto das minhocas um peso de chumbo
para as fazer mergulhar até ao fundo do rio. As enguias nadam sempre junto ao
leito do rio.
Recordo o pai com um casaco mais grosso e abrigando-se com um guarda-chuva a dizer-nos:
-Até
logo! E sem mais demoras, saiu a caminho dos campos em direcção ao
rio.
Procurou
um recanto para se proteger do frio e onde a corrente não fosse muito forte.
Depois sentou-se e mergulhou as minhocas no rio. Os seus olhos estavam atentos
aos movimentos da vara.
- Estão a
picar, disse e num segundo movimento, levantou a sertela em direcção ao
balde de madeira e deixou cair uma enguia lá dentro.
Voltou a
repetir estes gestos durante mais de duas horas.
Depois o corpo começou a arrefecer e ele levantou-se, guardou as suas coisas e disse:
- Bem,
vou até a casa! Para hoje chega.
As enguias gostam das minhocas e quando as comem vão também engolindo a linha onde as prenderam. Quando o pescador puxa a sertela elas vêm presas às minhocas e à linha.
O pai
chegou a casa todo molhado e cheio de frio.
Pousou
o balde e foi aquecer-se à fogueira. Os olhos dos garotos seguiam os
movimentos das enguias que teimavam em fugir.
Por mais
que dissesse:
- Não
mexam aí! Tirem daí as mãos! Não lhe adiantou nada. Ele sabia que a nossa teimosia seria forte demais.
Todos quisemos ter força para segurar uma enguia nas nossas mãos , mas elas sempre nos escapavam por entre os dedos.
Todos quisemos ter força para segurar uma enguia nas nossas mãos , mas elas sempre nos escapavam por entre os dedos.
luiscoelho
Março2016
A luta pela sobrevivência no que ela tem de melhor: cuidar dos nossos, cuidar de nós, tudo envolto num enorme manto de afectos.
ResponderEliminarMuito bem, Luís!
Abraço
rsssss...Segurar enguias não é pra qualquer um,rs Muito bem contado!Gostei! abraços,chica
ResponderEliminarBelíssimo. Este texto fez-me lembrar a minha infância em que, o meu avó ia para a perca, à sertela, e e eu com uma tia, atravessávamos o rio com agua pelo joelho para lhe levar o almoço (naquela altura dizia-se jantar) Era uma alegria quando quando trazia um saco cheio. Como não havia fartura de nada, tudo era bem vindo!
ResponderEliminarParabéns pelo maravilhoso texto
Beijinhos e obrigada
http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/
Relato/Conto duma realidade que ainda se vai passando nos nossos dias.
ResponderEliminarA vida dura duma pobreza injusta.
Abraço
SOL
Segurar uma enguia só com as mãos cheias de sal.
ResponderEliminarUm texto muito bem escrito , amigo. Como sempre maravilhei-me.
Um abraço
Olá, Luís,bem contada, relembrando tempos idos,vivido em não grande fartura, por isso, para comer , tem que correr atrás ou melhor, trazer sua rede de pesca cheia de enguias...
ResponderEliminaragradeço pelo carinho,belos dias, abraços!
Texto muito bom que nos recorda tempos passados (e hábitos que se vão perdendo), quando a necessidade obrigava a lutar pela subsistência em condições bem adversas.
ResponderEliminarLembro-me, quando eu era pequenina, de uma "reza" a Santa Bárbara, para aplacar a trovoada. Começava assim: Santa Bárbara se levantou, seu pezinho direito calçou, e Jesus lhe perguntou: onde vais Bárbara? - E continuava por aí fora...
Desejo um óptimo Domingo.
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS
Oi Luis,
ResponderEliminarCom frio ficaram "a ver navios".
Aconteceu, hoje não aconteceria, os filhos tem mais informações que nós
Beijos
Lua Singular
Bom dia, o tempo não para, com lá vamos nós com ele ao mesmo ritmo, tudo passa, novas coisas acontecem, as recordações ficam.
ResponderEliminarAG
Me encanta sempre ler um conto assim bonito, simples e de palavras que parecem fluir livremente.
ResponderEliminarGosto e gostaria de saber faze-lo.
Parabéns e obrigada pela passadinha por lá.
* são fotos Luis. Boas de serem transformadas em telas .
um abraço
Olá Luis,
ResponderEliminarLindas lembranças, narradas com muito encanto.
Lembrei-me da minha mãe nos momentos de raios e trovões. Ela tinha muito medo e logo começava suas súplicas a Santa Bárbara e à São Jerônimo.
Fiquei imaginando o malabarismo das crianças para tentar segurar as enguias-rs.
Abraço.
O passado está sempre presente. As crianças marcam nas memórias como quem escreve nas pedras. Abraço
ResponderEliminarHá verdades e factos bem mais difíceis de provar do que agarrar enguias à mão ( mesmo com sal ! ).
ResponderEliminarUm abraço.
Uma história muito bem contada. Não sabia que a pesca de enguias no rio se chamava "sertela". Quem diz que não andamos sempre a aprender?
ResponderEliminarUm abraço.
Como sempre amigo Luís, emocionei-me ao ler o seu conto.
ResponderEliminarÉ tudo descrito com tanto sentimento e realismo que fico presa na história e sinto que até faço parte dela.
Um beijinho grato por este momento
Fê
Cá estou no seu novo blogue.
ResponderEliminarCom a mesma atenção de sempre a ler as suas
maravilhosas histórias, como esta.
Virei sempre.
Um abraço amigo.
Irene Alves
Um belo conto/relato de uma realidade que só não é triste de todo, por estar envolta num manto de calor e ternura familiar.
ResponderEliminarAinda não há muitos dias ouvi esta frase que me ficou a latejar no coração:
"Num lar, onde só há amor para comer, não se morre de fome".
Obrigada, Luís.
Um abraço
Muito boa, Luis! Aqui a gente diz muito que tal sujeito é liso como uma enguia... É aquele que nunca se consegue pegar aprontando, sempre escapa.
ResponderEliminarAbraços!
Relendo para manter viva a lembrança.
ResponderEliminarAbraço
SOL
Mais uma vez me fizeste lembrar tempos idos, tempos dificeis, onde havis só o calor da lareira que não poucas vezes enchia a cozinha com uma fumarada insuportável; nao havia recuperadores de calor e na cama era um peso de mantas que nem nos podiamos mexer. Enfim....
ResponderEliminarNunca tinha ouvido falar dessa sertela e desse modo de pescar enguias; na minha familia não havia pescadores. A luta pela sobrevivência era outra, Beijinhos,Luis e obrigada. Aprendo sempre alguma coisa contigo
Emília
Muito bom Luis, a gente aprende e entende como certas enguias sempre conseguem escapar.
ResponderEliminarBeleza de construção com ótima reflexão.
Meu terno abraço na boa semana.
Procurava outro post que me aparecia na sidebar, mas afinal sai-me este que já comentei.
ResponderEliminarUm abraço e bom fim de semana
Passo para de desejar:Bom fim de semana.Beijinhos
ResponderEliminarCoisas de Uma Vida 172